A influência do neoplatonismo agostiniano na teologia atual
Introdução
Aurelius Augustinus (Agostinho 354-430 d.C.) é um dos nomes e ícones mais importantes da teologia patrística e recai sobre ele a responsabilidade de ter influenciado muitos outros nomes de peso da historia da teologia cristã. Este teólogo foi muito influenciado pelo platonismo, nos cabendo assim um olhar especial para perceber como ele lança e insere sua percepção platônica (um tipo de neoplatonismo) na teologia cristã. Sobre a reforma protestante é fato inegável dizer que o contato dos reformadores com a teologia agostiniana foi extremamente vital para o desencadeamento da reforma. Por esse viés é possível dizer que Agostinho pode ser entendido como um influenciador direto da reforma protestante. Neste breve escrito iremos mencionar esta ideia de influência neoplatonista agostiniana na teologia contemporânea e avaliar algumas posições bíblicas sobre tal influência.
Desenvolvimento
Iniciando com uma reflexão histórica precisamos citar as figuras de Lutero e Calvino. Lutero foi muito influenciado ao ler os escritos de Agostinho, provavelmente este é a maior influência de Lutero, fato pelo qual este teólogo alemão decidiu entrar para a ordem agostiniana. Algumas obras de Lutero tem uma carga agostiniana tão presente que chega-se e perceber a presença de Agostinho nesses escritos luteranos, conforme cita CARDOSO (p. 5). Dentre tantas influências uma das maiores a ser citada é sobre a concepção da teologia da graça, teologia essa que foi fundamental para a vida e história de Lutero que sempre pensava sobre o amor e perdão de Deus.
Na questão da influencia de Agostinho sobre Calvino pode-se dizer que a relação é a mais profunda possível. Calvino se identifica como um teólogo agostiniano e suas bases agostinianas são tão fortes que em sua principal obra Institutas CARDOSO (p. 5) cita que não é possível ler cinco páginas sem ver alguma menção a Agostinho. Agostinho de Hipona era tão calvinista, assim como Calvino era tão agostiniano.
Numa avaliação direta desta influência agostiniana na teologia atual, podemos perceber na cultura popular evangélica a presença de frases do tipo jargões evangélicos que dão essa tonalidade neoplatonista agostiniana. Frases como “me perdoe pela minha multidão de pecados”, “me perdoe por meus pecados por pensamentos, palavras e obras” e ainda outras como “não olhe para mim, olhe para Cristo” ou “ninguém é perfeito”, vem somente nos mostrar as marcas da presença neoplatonista agostiniana levando a achar que o pecado é inevitável e comum na vida cristã. Esta luta contra a existência do pecado e esta incapacidade humana diante do pecado são marcas evidentes na teologia atual onde se busca perfeição material e emocional, mas, não perfeição cristã. Ao perceber a fraqueza do homem e sua incapacidade de usar o livre arbítrio para escolher o bem, o homem fica propenso a aceitar a existência e a invencibilidade do pecado. Ao olhar para pessoa de Cristo em sua composição divina e humana, acaba-se aceitando uma divindade-humanidade que não se interferem e nem se ajudam. O Cristo homem e o Cristo Deus habitando em uma mesma pessoa sem se interconectarem. Seria isso o cristianismo, somente aceitar que temos uma natureza de Deus (por meio da salvação) e uma natureza humana, mas cada uma fica por si? Parece repousar aqui um pouco da carga platônica de entendimento, onde o dualismo aponta para o mundo perfeito e o mundo corruptível habitando juntos.
Ao argumentar contra esta posição inadequada diante da fraqueza humana devemos apresentar o ensino da santificação que é oferecida ao homem. Sendo, assim, que como a salvação é pela fé, também santificação é pela fé.
“E eu, em verdade, vos batizo com água, para o arrependimento; mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu; cujas alparcas não sou digno de levar; ele vos batizará com o Espírito Santo, e com fogo.” Mateus 3:11
A palavra bíblica acima nos apresenta o Espírito Santo como um batismo purificador, para tirar a força do pecado da vida cristã.
“Se vivemos em Espírito, andemos também em Espírito.” Gálatas 5:25.
As escrituras sagradas nos oferecem no trecho acima o convite, de certa forma até imperativo, de andar no espírito. Isso representa a possibilidade de viver uma vida no espírito.
“Digo, porém: Andai em Espírito, e não cumprireis a
concupiscência da carne.
Porque a carne cobiça contra
o Espírito, e o Espírito contra a carne; e estes opõem-se um ao outro, para que
não façais o que quereis.”
Gálatas 5:16-17.
Neste trecho aos Gálatas, Paulo traz uma advertência um tanto quanto consoladora informando que é possível andar no espírito, e aqueles que andam no espírito podem sim escolher não cumprir as concupiscências da carne.
“De maneira que, irmãos, somos devedores, não à carne para viver segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis.” Romanos 8:12-13.
Outro trecho de Paulo, agora aos Romanos, fala da nossa divida. No espírito não somos devedores da carne para viver como a carne deseja. O presente do Espírito Santo é ajudar o homem a viver pela fé mortificando as obras da carne.
Mas, agora, libertados do pecado e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para santificação, e por fim a vida eterna. Romanos 6:22
Conclusão
Somos convidados pelas escrituras sagradas a não nos conformar com a presença do pecado em nós (não vos conformeis). Ele de fato é real e pode levar à queda, mas, no Espírito Santo por intermédio da fé somos convidados a buscar uma vida no Espírito, para liberdade e para a santificação. Existem trechos abundantes nas escrituras sagradas para entendimento de que o homem é chamado não somente para a salvação pela fé, mas também e igualmente para a santificação pela fé.
Referências
CARDOSO, Alexandre A. P. A influência da teologia agostiniana em nós por meio dos reformadores. Disponível em < encurtador.com.br/uzO19> acesso 10/03/2021
NETO, Nestor Vieira de Melo. Um percurso pelo maniqueísmo, ceticismo e neoplatonismo através da ótica de Santo Agostinho. UERN - I Semana Nacional de Teologia, Filosofia e Estudos de Religião, 2019.
