Lucas Gomes - Egito


Amados, terceiro contato do Lucas Gomes no Egito.

Cairo, 29.05.2010

Olá amigos, no dia 23 de Maio fez um mês que cheguei ao Cairo.
Nos dois primeiros contatos que fiz, compartilhei além de reflexões genéricas, um pouco das impressões que tive nesse primeiro mês. Impressões essas relacionada ao contato com uma cultura totalmente deferente da que eu conhecia até então.
Como compartilhado no ultimo informativo, tenho lutado para não ficar preso no choque cultural, pois isso pode atrapalhar todo o restante do meu tempo aqui, mas também estou tendo que cuidar para não negociar e relativizar com as crenças que creio ser absolutas, digo absolutas não para nós ocidentais, mas para nós moradores de um mesmo imenso jardim.
Nesse contato quero dar um retorno sobre o trabalho que fui desafiado a realizar aqui no Egito.
Como vocês sabem, faz dois anos que temos parceria com uma organização egípcia que trabalha com crianças e adolescentes em situação de risco. Pensando como uma única equipe (nós e eles), temos desejado além de trabalhar com reintegração das crianças já “atingidas” pelas mazelas que as levaram às ruas, queremos também promover um trabalho de prevenção nas regiões onde as crianças e suas famílias estão vulneráveis aos diversos tipos de violências, para assim tentar diminuir as futuras fragmentações familiares.
Pela experiência que eu tenho adquirido em mapeamento de cenários no Rio de Janeiro, fui enviado junto com uma amiga, para conhecer detalhadamente todos os distritos do grande Cairo, região que abrange três cidades, para assim identificar as possíveis áreas vulneráveis, e que são geradoras de crianças em situação de rua. Identificando essas áreas, objetivamos montar centros de desenvolvimento comunitário nas mesmas.
Na ultima semana conseguimos terminar o mapeamento dos distritos da cidade do Cairo. Nesse tempo conhecemos todas as principais áreas carentes da capital, cerca de 26 distritos.
Um diferencial das favelas aqui do Cairo, é que podemos entrar e sair das áreas carentes sem precisar pedir permissão a um poder paralelo, ou mesmo sem se preocupar em sermos assaltados. Isso nos ajudou a quebrar alguns dos nossos viciados paradigmas.
A vulnerabilidade familiar aqui também é bem peculiar. Devido à possibilidade da bigamia, (o que já não é mais tão freqüente) e outros fatores, o numero de membros nas famílias são bem grande, e pelo desemprego, há dificuldade no sustento de todos. Por causa disso, é muito comum e até mesmo cultural, as crianças pobres trabalharem. Na cidade esse trabalho está vinculado ao comércio e turismo, nas zonas rurais na lida com o campo, animais... Cada área tem sua especificidade.
Pelo trabalho infantil ser comum nas culturas tradicionais, inclusive na árabe, por aqui não há o conceito de exploração de mão de obra infantil, como há aí no Brasil. Daí a maioria das crianças que precisam ajudar no sustento familiar acabam tendo que abandonar a escola.
Assim que chegamos tivemos que distreinar o nosso olhar sobre crianças de rua, pois praticamente não há crianças mendicantes moradoras de rua, o que há são crianças e famílias que trabalham nas ruas, ou mesmo algumas que vivem nas ruas, mas trabalham. A grande maioria dessas, voltam para casa no fim do dia. Mas como em qualquer outro lugar, nas ruas essas crianças estão vulneráveis a diversos tipos de violências. Muitas crianças que a organização tenta reintegrar às famílias, sofreram algum tipo de violência física e até mesmo sexual.
Outra peculiaridade, é que como politicamente o país é bem mais rígido do que o nosso, é terminantemente proibida a vadiagem e vandalismo dos menores nos locais públicos. Isso acaba inibindo com que eles fiquem pelas praças ou cometam furtos.
A partir dessa semana, começaremos o mapeamento em outra cidade do grande Cairo.
Além do intenso trabalho, nos fins de semana tenho aproveitado para conhecer os locais turísticos e históricos. Já fui às Pirâmides, caminhei na orla do Nilo, conheci a casa onde supostamente José, Maria e Jesus moraram quando vieram ao Egito, fugindo de Herodes. Conheci também o local onde supostamente Moisés foi tirado do Nilo quando criança pela filha do Faraó.
Para que quiser ver, postei algumas fotos no meu Orkut.

Grande abraço para todos, agradeço pelo comprometimento e carinho que vocês tem tido comigo.

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